De dia 27 de Abril a dia 26 de Maio de 2017

Com curadoria de João Silvério

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Propulsão

 

Ricardo Valentim Nunes (Lisboa, 1975) é um artista para quem a prática do desenho é equivalente à sua respiração cutânea. É uma modalidade essencial de viver e não um acto de sobrevivência. E isto tem uma particular importância porque muitos dos desenhos que executa no seu dia-a-dia são o seu carpe diem, registado em livros que se sucedem como capítulos de uma obra maior e mais extensa, que se prolonga por anotações que reflectem a sua compreensão do mundo. Esses livros poderiam ser diários gráficos, diários intimistas ou até uma súmula dos dois. De facto, esses livros, que lhe são tão próximos como a estrutura invisível de um maquinismo que o anima, são o propulsor de uma obra que se constrói sob uma forte vontade de experimentar e uma compulsão que se expressa numa produção intensa, começada nas páginas dos livros e projectada sobre formatos de maior dimensão, desenhados a preto sobre folhas de papel.

Os seus desenhos são construções abstractas que denotam uma mão treinada que o artista sistematicamente tenta contrariar, tomando decisões e opções que, entre o reduzido formato utilizado nos livros e a diferenciação de escala, seguem uma métrica que, sem recorrer à ampliação, configura uma lógica de composição que se corresponde, e por vezes parece até repetir-se. Mas não se repetem, replicam-se enquanto módulos que se agregam numa tensão entre forças desenhadas, por vezes por uma linha que religa formas e manchas que se individualizam por momentos; um vislumbre jamais poderá absorver cada uma das imagens que o artista produz.

Há um movimento quase musical, como se diversas sonoridades exibissem a sua notação em diversas áreas do plano da folha, mas simultaneamente essas sonoridades plásticas são também elementos que se destacam e contraem sob um olhar mais atento. Muitas destas formas são reféns da nossa memória visual, como desenhos esquemáticos que nos recordam plantas arquitectónicas, cidades imaginadas e contrastadas por itinerários que só o desenho pode, muitas vezes (e este é o caso), produzir: devem-se ao movimento da mão essas texturas opacas e as micro-coreografias que quase se ausentam da folha, deixando um leve registo sobre o seu fundo branco que funciona como o plano e o ecrã da evolução que estas obras sofrem no acto que lhes resgata o corpo do artista. Uma ou outra vez a cor aparece, num repto à pintura que o autor trabalha como se essa prática fosse tributária do desenho e, em parte, sua devedora, porque estes desenhos são também a pulsão e a ascese de um pensamento que não procura libertar-se no acto do fazer, seja o formato diferente ou um outro suporte escolhido.

Muito pelo contrário, a obra de Ricardo Valentim Nunes é um encontro constante com referências das quais extrai segmentos, partes, fragmentos e ligações que não procuram o seu modelo mas aspiram, no solipsismo do fazer, a uma disciplina transgressiva e magmática, que sem se tornar matérica transforma a geometria numa organicidade háptica, como se lhe pudéssemos tocar. E os seus desenhos podem ainda transformar-se e representar formas vibrantes como rasuras, scribbles ou doodles desenhados, rememorando a composição que assenta nas páginas dos livros. A exposição “Propulsor” é antes de mais um encontro com a prática do desenho enquanto progressão cumulativa no interior de cada obra.

João Silvério
Março 2017


Ricardo Valentim Nunes (Lisboa, 1975)
É licenciado em arquitectura na Universidade Lusíada de Lisboa, estudou desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes e foi aluno na Escola Secundária António Arroio. Realizou vários trabalhos de ilustração para empresa Turismo de Lisboa em 1997 e 1998. Em 2003 participou na exposição colectiva “Artistas sem Fronteiras” na Galeria PER F OR ART, Barcelona. Participou no evento Pop Up Lisboa com a instalação “o melhor lugar para se estar” (2009), apresentou uma exposição com instalação e pintura no Hospital Júlio de Matos (2010). Fez ainda uma instalação em 2011 no Espaço Nimas. Durante os meses de Fevereiro e Março de 2012 apresentou uma instalação/performance na Fábrica Braço de Prata “Espaço-Tempo e outras coisas”. Desenvolveu trabalhos de arquitectura e urbanismo em Lisboa e Angola.