de 20 de Setembro a 20 de Outubro de 2018               Nádia Duvall | ABALO I

Nádia Duvall é um vislumbre de um futuro com que poucos se atrevem a sonhar. A sua vida representa inevitavelmente a vitória absoluta face aos nossos piores medos. Atrevo-me a dizer isto porque há pouco mais de 30 anos a artista viveu na pele o que centenas de milhares vivem hoje quando tentam chegar à Europa como refugiados, vindos de uma África à qual toda a esperança já foi roubada há muito. Nesta exposição assim como em toda a sua obra (e dos seus 9 heterónimos) encontramos um corpo de trabalho verdadeiramente autobiográfico que se prende com acontecimentos da primeira infância envoltos na neblina do esquecimento mas cheios de afectos, autenticidade e relevância. Acho essencial pelo menos referir alguns eventos que são explorados nesta exposição: a prisão do pai biológico e as portas que o afastaram das suas filhas, a sua radicalização religiosa, a fuga de Nádia com a sua mãe da Argélia para Espanha e depois para Portugal, a morte da sua mãe passados poucos anos como consequência dessa fuga… Ainda assim, com o investimento afectivo da sua família adoptiva, conseguiu estudar Arte Plásticas nas Caldas da Rainha, fez o mestrado em Pintura nas Belas Artes em Lisboa e ganhou múltiplos prémios e um protagonismo que me parece ainda claramente insignificante quando comparado com o que deverá vir a ter.

Nádia encontra-se na ligação entre o interior e o exterior, entre o seu passado e o nosso futuro, entre o Eu e o Outro, o inconsciente e o desconhecido. Nestas coordenadas, inscritas numa rosa-dos-ventos com que deparamos nesta exposição, encontramos a pele (de tinta) como um interface outrora numa piscina, a que a artista chama “útero”, que enrijece e se torna obra…Uma tela que passa ser um chiffon transparente, poroso e que permite a respiração cutânea da luz e do olhar… Uma grade de tela que é um “esqueleto” e a fonte de toda a atmosfera emocional que define a aura desta exposição. Fica portanto uma artista e uma exposição “sem fronteiras” como está escrito em árabe no chão da galeria. Entre portas e importada como mercadoria, ou como está num trabalho: “Emportada”. Encarnada de carne e não só pela sua carga política. Perda… Encontro… É por tudo isto e muito mais que no futuro um pequeno documentário será inevitável para que se consiga ver o futuro de tantos através desta vida intensa que a artista encarna.

texto de Manuel Furtado

 

ABALO,

o primeiro

 

 

pele

poro

porta

 

ou será por outra ordem? Ou talvez nenhuma?

No vácuo, aquele abismo enigmático que me absorve quando salto, não existem significados ou ordem, apenas a direcção concreta da gravidade. Nela, uma estranha sensação de queda onde somos sacudidos ritmicamente em todas as direcções. Portanto começo a considerar que essa queda não tem necessariamente uma verticalidade mas vários eixos sedentos da sua proximidade.

pele poro porta;

 poro porta pele

vamos considerar que a ordem é então   irrelevante ou não chegamos a lugar

nenhum!

 

Sem norte, procuro-o:

VÁCUO.

O único lugar que requer um buraco para entrar e a morte ou o êxtase (a quase-morte) para sair, uma abertura tão grande que rompe com todas as fronteiras que qualquer porta poro pele tem.

Há sempre perigo nesta queda de falsa verticalidade.

Primeiro é acreditarmos que de facto a queda é vertical, sem fundo e sempre na alegria profunda de liberdade. Dizem que é verde, eu não a recordo assim. Recordo: as grades sem cor, as portas verdes. Eram gigantes, ou eu pequena demais.

Segundo, há o perigo da morte efectiva. Dessa não há muito a dizer. Todos a reconhecem. É efectiva, concreta, diria geométrica.

Por fim, o maior perigo de todos: durante o mergulho da queda, perdemo-nos na sua imensidão, imensamente rítmica. Ficamos presos a memórias virais e a pedaços de corpo pegajosos que se soltam e se desfazem sem som. Somos pálidos e rotos numa maca do hospital: esquizofrénicos em sobreaquecimento!

Nesse lugar estéril e inóspito, o som é audível…PUM PUM PUM!… Portas a bater. PUM PUM PUM!…O coração a pulsar. PUM PUM PUM!… Pedaços de corpo que explodem.

 

PUM PUM PUM!… a surpresa.

PUM PUM PUM!… Quem és tu?

PUM PUM PUM!… as portas batem.

 

PUM PUM PUM!… Quem és tu?

 

Não sei se sou orgânica ou uma recta. Um quadrado, um círculo uma mancha.

Pele, porta, poro – uma interface entre o interior e o exterior. Estou dentro e fora ao mesmo tempo, sempre atenta ao perigo de não morrer em demasia, mas sempre desejando – ardentemente – morrer o suficiente para expurgar cada memória, cor e gritos. É o orgasmo da liberdade!  Sem ordem, sem religião, sem língua, sem política, sem fé, sem pele. Morrer assim pressupõe passagens de uma porta para outra. De um poro para outro. De uma pele para outra. Estou em-portada.

Morrer pressupõe oralidade e uma certa quantidade de skatós indiferenciável.  Morrer é parte da minha criação. Nasço sempre que morro. Nasço das fezes, renasço das memórias. Não existem cinzas. Ficção ou realidade? São poros. Interessa sobretudo não dar demasiado significado às palavras. Elas perdem o seu valor no vácuo, nesse interior-exterior da criação.

Cada poro porta pele absorve e segrega tal como pequenos ânus saltitantes que geram, criam ou destroem. Cada toque suave na epiderme gera prazer ao excitar estes poros ansiosos, o toque vai além da matéria: ele é completamente absorvido. No reverso da suavidade, a brutalidade também é igualmente absorvida entranhando-se completamente no ser. Estas interfaces são uma metáfora para a própria criação artística que está em constante simbiose com este pulsar erótico e escatológico.

 

Há ligações que desconheço. Interessa mesmo saber? O saber não vale de muito quando se está em-portado. Mantenho esse desconhecido que sobrecarrega o meu inconsciente. Deixo-o florir em toda a sua verdade ou mentira. É-me irrelevante!

Quem sou eu?

PUM PUM PUM… portas peles poros. Orgânica, presa entre rectas. Ou será que são as rectas que estão presas? Desligo-me da ordem. Ela mata-me, concretamente. Atento ao caos. Ele mata-me, eventualmente.

 

PUM PUM PUM!

As portas batem deixando entrever qualquer coisa.

PUM PUM PUM…!!!

 

Fugazmente vejo…

Abalo.

Estremeço.

Caio.

 

As portas são demasiado grandes, ou eu demasiado pequena?

 

Vácuo.

 

Neste lugar propõe-se um mistério:

 

que a pele – alargada em cada poro – seja revelada em todo o seu esplendor.

A cor, a luz e as sombras dizem o indizível.

A verdade é trôpega.

O caos é manipulado numa falsa ordem.

Neste mistério en-carnado há um abalo

aqui és parteiro.

 

 

texto de Emily Ham1

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1 Um dos heterónimos de Nádia Duvall