de 26 de Outubro a 23 de Novembro de 2018                Juliana Matsumura e Maria Albergaria | Evocatório I

Em Evocatório, lugar inventado a duas, mostram-se trabalhos de Juliana Matsumura e Maria Albergaria. Tal como quando se abre um baú ou uma caixa de lembranças, estamos no território daquilo que é ao mesmo tempo familiar e estranho. O conceito de evocação, para além de implicações ao nível da memória e do inconsciente, abrange também práticas humanas ancestrais, como a evocação dos mortos durante rituais, convidando-os a retornarem ao mundo temporariamente. Evocar é chamar os mortos, ou o que está ausente. O desejo de evocar, partilhado por ambas as artistas, é contudo abordado de perspectivas diferentes.

Juliana Matsumura incorpora no seu trabalho uma preocupação constante com os processos destrutivos, tanto naturais como humanos (distinção, que na verdade, não faz). Mais ainda, faz-nos pensar sobre a forma como encaramos diferentes tipos de destruição. Ao olhar para as suas pinturas a ideia de violência ou destruição não é óbvia, porque, e esse é um objetivo fulcral da sua prática, aquilo que sobra, aquilo que é visível, o remanescente (nome de uma série de pinturas de 2017), é de uma subtileza e suavidade que tornam difícil a sua identificação no resultado final. As pinturas evocam não só a destruição enquanto coisa que transforma e cria a matéria, como um terramoto, mas para tipos de destruição mais subtis, como a erosão do solo, o envelhecimento, o esquecimento ou a perda de informação visual.

Já o trabalho de Maria Albergaria prende-se essencialmente com a utilização do ouro, mais especificamente a folha de ouro, muito usada nas iluminuras e posteriormente na talha, técnica cuja existência tende a cair no esquecimento. A artista utiliza a ideia do Ouro para compor trabalhos que remontam a um tempo em que o metal possuía um enorme valor simbólico e representava o poder económico, demarcando estatutos sociais e enaltecendo o poder do sagrado nas instituições religiosas. O ouro foi desde sempre um material de criação de antagonismos entre os que possuíam e os que não possuíam riqueza, mas também entre aqueles que tinham acesso ao Belo e os que não. Maria Albergaria, com a sua experiência em restauro, revela um saber-fazer, um cuidado e uma delicadeza que evocam um passado em que o artista e o artesão tinham um mesmo estatuto: o artista era aprendiz ou mestre de um ofício. Ao reflectir o passado  na própria  matéria  que é trabalhada, integra um metal que esteve presente no melhor e no pior da humanidade, em muitas das suas mais belas obras e em muitos dos seus mais terríveis crimes, criando uma nova camada de significado. Transcendendo este contexto histórico, da talha e do ouro, podemos fazer múltiplas análises formais, geométricas, diagramáticas, dos materiais de suporte (como a tela desengradada) e até de uma matriz de quadrados que ecoa múltiplas estruturas contemporâneas.

As duas artistas conseguem evocar com os seus trabalhos questões complexas, ainda que o façam  tangencialmente, utilizando-as como orientação das suas práticas e sem a vontade de chegar a soluções descritivas. Isto mais do que significar pudor, mostra uma consciência da dificuldade de pensar o mundo em toda a sua complexidade. Ao depararmo-nos com os seus trabalhos podemos pensar, por exemplo em Sebald, escritor germânico radicado em Inglaterra, que ataca a dificuldade de falar sobre o Holocausto, sobretudo para os que não tinham sido vítimas directas do seu terror, ao construir uma teia de histórias que o delimita, que lhe serve de fronteira, deixando dessa forma, ao leitor, o trabalho de intuir aquilo que existe nesse espaço sobre o qual não se fala, ou sobre o qual não sabemos o que dizer. Que estes problemas se tenham mostrado demasiado profundos para que, individualmente, os encaremos com a confiança de os derrubar, não deve demover os artistas de refletir sobre eles e de produzir trabalhos que nos ajudem a pensar o mundo com novas ferramentas.

Frederico Parreira

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Biografias:

Juliana Matsumura nasceu no interior de São Paulo, Brasil. Vive e trabalha em Lisboa. A artista concluiu o curso de Desenho do Ar.Co em 2017, tendo frequentado o curso de Têxtil e Moda da Universidade de São Paulo (2011-2013) e o curso de Design de Moda da Universidade de Lisboa em 2014, em intercâmbio com Bolsa de Mérito Académico. Realizou residências artísticas e participou de exposições colectivas no Brasil e em Portugal.

 

Maria Albergaria nasceu em Lisboa, onde vive e trabalha. A artista integrou o  curso de Pintura Decorativa da FRESS em Lisboa em 2001, o curso de Peintre en Décors, do IPEDEC em Paris em 2004 e o curso de Restauro de Pintura Mural, do IADE em Lisboa em 2006. Em 2014 ingressou no Curso de Pintura do Ar.Co, onde frequenta actualmente o Curso Avançado em Artes Plásticas. Do seu percurso como profissional do restauro a artista adquiriu gosto em trabalhar com folha de ouro e desenvolve as suas peças a partir da experiência que teve com a talha dourada.